“O Instituto Baccarelli mudou completamente minha vida, pois foi através dele que comecei a estudar música. Todo o meu conhecimento musical adquiri lá e é uma honra integrar uma instituição como essa. Recentemente estreei algumas obras de minha autoria na série ´Noite Musical´, ao lado de amigos e parentes. Para um jovem compositor como eu, estudar num lugar que oferece não só a formação musical, mas o espaço e as condições adequadas para o músico se desenvolver é simplesmente um sonho. Para mim, o Instituto Baccarelli não é apenas uma escola, mas sim a minha outra família.”

“O Instituto Baccarelli é meu segundo lar e dos momentos que passei nessa casa, eu nunca me esquecerei. Sou privilegiada de ter feito parte da história desse lugar que me aprimorou, me ensinando a persistir nos estudos pra seguir mais confiante e inspirada.”

Aline conversa por telefone desde Freibourg, na Suíça. É lá que ela vive hoje com o marido Sebastian e a pequena Helô, de 1 ano e nove meses. E onde tem desenvolvido seu trabalho como trombonista. Tem um grupo próprio, um quinteto de metais. Toca como convidada em conjuntos como as orquestras de câmara de Freibourg e Lausanne. E e em janeiro começa a dar aulas para crianças em um centro comunitário. “Foi aqui que construí minha rotina, mas não descartamos poder voltar ao Brasil, nem que seja por um tempo, para poder trabalhar e compartilhar o que aprendemos.”
Aline nasceu em Pirassununga. O pai era trombonista, sargento músico da aeronáutica. Com 15 anos, ela entrou para a Banda Marcial de São Carlos. Era uma brincadeira, um hobby. “Mas logo ficou sério”, ela se lembra. “Eu tinha facilidade e comecei a estudar muito, fui avançando e, na hora de fazer o vestibular, resolvi cursar música.” Faltava base teórica, mas após um “intensivão” com um maestro da banda, ela entrou na USP em Ribeirão Preto. Isso foi em 2007. E, dois anos depois, ela conseguiu a transferência para o campus de São Paulo da universidade.
Fazia apenas um mês que ela havia se mudado para a capital quando fez a prova e foi aprovada na Orquestra Sinfônica Heliópolis. “Foi uma mudança incrível, ensaios de terça a sexta-feira, com o maestro Roberto Tibiricá e mais tarde com Isaac Karabtchevsky. Eu tomava até chá de erva cidreira porque ficava nervosa, eu sonhava com ele”, ela lembra, rindo. “A exigência era muito grande mas hoje eu vejo o como isso foi importante. A rotina de trabalho, as provas de reavaliação, tudo isso me preparou para a realidade que eu encontrei quando me mudei para a Suíça”, explica.
A mudança aconteceu há quatro anos. Foi um processo. Primeiro, Aline teve as primeiras experiências no exterior ao lado da orquestra, em 2010, na turnê europeia do grupo, e em um festival na Alemanha, onde tocou como solista. Depois, conheceu um professor francês em um curso em Piracicaba. “Ele gostou do meu trabalho e me propôs ir para a Europa estudar. Ele dava aulas na França e na Suíça. Como eu queria fazer um mestrado, a Suíça foi a melhor opção. Então eu vim.”
A viagem exigiu enorme esforço. “A primeira etapa foi me inscrever. Em seguida, ir para fazer a prova. Eu não tinha como comprar a passagem, um amigo me emprestou o cartão de crédito dele. Mas fui e passei. Quando anunciaram meu nome, eu nem entendi, era tudo em francês! Até para falar meu nome tinha um sotaque difícil de entender”. Era necessário, então, juntar dinheiro para a viagem, pois não havia bolsas disponíveis. “Eu vendi o que pude, contei com a ajuda de patrocinadores do instituto, da Katri Lehto, que me deu uma grande força. E vim. Cheguei aqui com dinheiro mal suficiente para pagar meu primeiro ano de estadia.”
E como foi a chegada? Nervosismo? “Olha, é parte da minha personalidade nunca pensar no pior. Sempre fui levando as coisas com coragem. E foi o que aconteceu desta vez também. No final, foi tudo dando certo. Depois de um ano, fiz provas e entrei como musicista substituta em duas orquestras daqui. Casei, tive minha filha, fui construindo minha vida. Mas o Brasil fica na memória. Tenho saudade do clima e acho que passar um tempo aí vai ser bom, poder tocar, ensinar, e o Sebastian, que é violoncelista, também tem muito a contribuir. Ainda não sei quando, mas vai acontecer.”

Quando você quer ser alguém na vida, você tem que ir para o Baccarelli. Foi isso que a pequena Ana Luiza, nascida em Heliópolis, ouviu do pai quando tinha pouco mais de quatro anos de idade. E assim ela passou a integrar um dos corais do instituto. “Eu tinha que acordar muito cedo, às seis da manhã, e chegava meio triste lá. Mas depois melhorava, porque eu começava a cantar e era uma sensação boa”, ela conta.
O irmão mais velho de Ana Luiza já estudava no instituto. Está com 10 anos e toca trompete. Não foi por acaso, portanto, que o instrumento foi sua primeira opção há dois anos, quando ela completou 7. “Mas depois eles me apresentaram o oboé”, ela diz – e a timidez, enorme, começa a diminuir enquanto ela explica como funciona o instrumento. “Hoje, eu gosto muito de tocar, mas também de cantar.”
Ana Luiza continua a acordar cedo – mas já não fica triste por isso. Sua rotina inclui aulas de música pela manhã e a escola à tarde. Não é, claro, hora ainda de tomar decisões. “Eu ainda sou muito pequena”. Mas e daqui a 10 anos, quando ela estiver com 20? O que ela imagina que estará fazendo? “Quero fazer música.” E por quê? “Porque fazendo música você acaba ganhando um montão de amigos, mais do que na escola. Aqui também os professores são mais legais, gostam da gente, cuidam, não brigam à toa. E sempre que eu ouço uma música que eu gosto, eu sinto até um arrepio. E arrepia também quando você está tocando. E cantando.”

“Estou no Instituto Baccarelli há 9 anos, metade da minha vida, e posso dizer que minha formação social e pessoal foi construída lá. Integrar o instituto é se tornar uma pessoa melhor a cada dia, é receber um estímulo constante para você querer se dedicar cada vez mais ao seu instrumento, e almejar melhorar progressivamente, é um empenho intenso à música, mas mais do que isso: é instruir seu coração. Quero me tornar uma excelente violinista e transmitir tudo o que aprendi no Instituto. Sou muito grata a esta Instituição, que me proporcionou não só estudar com professores formidáveis, mas também tornar uma pessoa dedicada e responsável. Espero um dia retribuir tudo o que o Instituto fez por mim.”

Cynthia tem 9 anos, chega com uma expressão bem comportada. Mas não é prudente se deixar enganar. Bastam alguns minutos de conversa para se dar conta de que por trás daquele olhar tímido está alguém que já entendeu o papel que a música vai ter em sua vida. “Eu sempre quis ajudar as pessoas. Antes, eu queria ser médica, sabe? Mas aí eu comecei a estudar música e acho que com ela também dá para ajudar.”
Foi com apenas quatro anos que Cynthia explicou para a mãe que queria cantar. Ela já cantava ao lado do irmão mais velho, na igreja. Mas queria mais. A mãe ouviu falar do Instituto Baccarelli. E Cynthia logo passou a integrar um dos corais do projeto. “Cantar faz com que eu possa me expressar. Eu posso ser eu mesma quando estou cantando, eu me sinto muito mais solta.”
Ela continua no coral, mas também começou a estudar violino. Sentiu uma diferença grande. “Quando a gente faz música, tem que ser com o coração. Cantando, a voz já sai de dentro da gente, mas no violino você tem que mostrar o sentimento”, ela diz, e conta em seguida que dali a alguns dias vai ter prova do instrumento Ela está pronta? “Sim!”. Vai ficar nervosa de tocar na frente dos outros? “Não, eu gosto de ter uma plateia, porque aí você já vê no rosto das pessoas se elas estão gostando ou não.”
Quando tiver mais idade, Cynthia pretende dar aulas no Baccarelli. “Porque as pessoas dizem que não gostam de música, mas é porque elas não entendem como é a música, e eu acho que posso ensinar a elas.” Mas ainda tem tempo até lá. Os planos mais imediatos são outros. Depois da prova, ela sai de férias. Se for aprovada, vai poder ter um violino só seu. “Seria bom, porque eu vou para Bahia e eu queria poder tocar para a minha avó que mora lá ouvir. Acho que ela vai gostar.” Com certeza.

“O Instituto Baccarelli nasce em 1996 e, com ele, a minha história de amor à música. Permaneci durante 17 anos na Orquestra e asseguro que a música propiciou as maiores e melhores experiências de minha vida: conquistas profissionais, acadêmicas, viagens inesquecíveis e amizades verdadeiras que trago comigo até hoje. De forma mágica e imensurável, a música – com seu poder transformador – permeia tudo que fui, sou e serei de maneira indissociável ao Instituto Baccarelli. Assim, minha história permanece ligada à Instituição de diversas formas: pela amizade, pelo meu sobrinho Gustavo, aluno de musicalização há 2 anos, e por diversas oportunidades que me são oferecidas e continuo aproveitando. O curso do método Suzuki em fevereiro de 2016 é uma delas e foi importantíssimo para complementar minha formação como Professora de Música – carreira que escolhi seguir profissionalmente.”

Denise Alves estava com 14 anos quando um incêndio consumiu boa parte de Heliópolis. Ela estudava na época no Gonzaguinha, uma das principais escolas da região. “Foi uma tristeza enorme”, ela relembra. “As pessoas que ficaram sem teto buscaram abrigo lá, então todos nós nos mobilizamos para ajudar. Mas era um momento de dor, dor por enxergarmos a realidade que estava à nossa volta.”
Foram as imagens do incêndio na televisão que levaram o maestro Silvio Baccarelli a começar a dar aulas para jovens de Heliópolis. E Denise integrou a primeira turma, que se reunia para aulas e ensaios na casa do maestro, na Vila Mariana. “Eles foram falar da ideia na escola, lembro da professora até achando meio absurdo. Eles falavam com os melhores alunos e também com os mais problemáticos.” Denise pertencia ao primeiro grupo. “Eu fui, achando que ia aprender bateria ou guitarra”, conta. O irmão, no entanto, sugeriu a ela o violoncelo. “Mas o som do violino falou mais alto.”
O crescimento de Denise na música acompanhou o próprio desenvolvimento do instituto. “Fomos todos aprendendo juntos. E aos poucos a música foi crescendo dentro de mim. Ao mesmo tempo, foi surgindo uma amizade grande entre aquela turma.” Na hora de entrar na universidade, apesar da “breve resistência” da família, Denise não pensou duas vezes. “Tudo o que de melhor havia acontecido para mim foi na música, foi no instituto.” Ela estudou na Faculdade Cantareira, onde realizou um trabalho de conclusão do curso sobre o impacto do Instituto Baccarelli na vida daquela primeira turma da qual fez parte.
Uma das conclusões a que Denise chegou foi a de que quem seguiu na música, estudou mais. Mas a experiência pessoal traz de volta outras lembranças, que ajudam a entender o impacto que a música pode ter na vida das pessoas. “Logo que o instituto começou, uma emissora de televisão veio até aqui fazer uma matéria. Na época, eu tinha um tênis só, e ele estava furado. E não esqueço do câmera mostrando insistentemente o furo. Ali eu me dei conta de que eu era mais do que simplesmente um tênis furado. E que não queria ser exposta pela minha condição social. É nesse sentido que o trabalho do instituto e a música foram importantes. É claro que, no que diz respeito à área musical, é preciso investir em excelência. Mas há outro lado. Em fevereiro de 2017 eu assumo minhas primeiras turmas de alunos aqui. E eu quero dar a eles aquilo que eu também tive: a capacidade de acreditar em mim mesma e não deixar que me reduzam a fórmulas e preconceitos.”

“O Instituto Baccarelli tem sido para mim um lugar de desenvolvimento musical, profissional e, sobretudo, humano. Tive a honra de estrear minha composição na serie Noite Musical (série de concertos no Instituto Baccarelli) em meio a amigos e familiares – o que foi muito significativo para mim, já que esta peça acabou sendo publicada na Itália e foi gerada praticamente aqui no Instituto. Sem dúvida alguma o Instituto Baccarelli marcou minha vida de uma maneira única e especial.”

Em agosto de 2008, o futuro de Emerson parecia definido. Após se formar em violoncelo no Instituto Baccarelli, estava entrando em seu segundo semestre na Unesp, participando aqui e ali de masterclasses com músicos brasileiros e de fora. Até que, depois de uma destas aulas, um professor israelense lhe fez a pergunta: você quer ir estudar em Israel? A proposta vinha acompanhada de uma bolsa. De Emerson, bastava um “sim”. Um detalhe: as aulas começariam dali a um mês.
“Eu saí de lá e liguei correndo para a minha mãe, que ficou apreensiva, pois no nosso imaginário Israel é um local de conflito, de guerra. Mas ao chegar em casa, eu já estava decidido: poder estudar fora era um sonho, então resolvi que eu iria. Corri para aprender um pouco de inglês e um mês depois embarquei, com a cara e a coragem.”
Emerson nasceu em São Paulo e fez parte da segunda turma de jovens de Heliópolis a estudar no Baccarelli. Isso foi em 2000. “Eu tinha 12 anos, não passei na prova, fiquei como suplente, mas acabei sendo chamado. Eu pensava em tocar viola, mas no final optei pelo violoncelo, o que me deixa feliz hoje.” Em casa, a música ouvida era a popular: os pais gostavam em especial de Roberto Carlos. “A música clássica era um mundo desconhecido. Mas o tempo foi passando e quando se formou a Orquestra Sinfônica Heliópolis, eu tive certeza de que esse era o meu caminho.”
O trajeto que o levou a Tel Aviv passou antes por Caracas, na Venezuela. “Meu professor da época, Fabio Presgrave, me ligou uma vez, isso foi em 2006 ou 2007, e disse que estavam precisando de um violoncelista para participar de um Festival Villa-Lobos no El Sistema. Eu fui e, no ano seguinte, acabei voltando, para outro festival. E, além de ter contato na Venezuela com um professor israelense, acabei conhecendo o Roberto Ring. E foi ele que me convidou para aquela masterclass.”
Emerson ficou seis anos em Israel, onde concluiu o bacharelado e o mestrado. Foi um período de enorme aprendizado, mas também de adaptação. “Houve um momento, alguns dias, em que pensei em desistir. É tudo novo, uma cultura diferente, hábitos diferentes. E bate saudades de casa, do país, das pessoas, você fica confuso. Mas depois passou”, ele lembra. Durante esse tempo, nas voltas ao Brasil, manteve contato próximo com o Instituto Baccarelli. “Formamos uma família, até mesmo por termos começado praticamente junto com o projeto e termos crescido com ele.”
Em 2014, recebeu um convite para assumir o naipe de violoncelos da Filarmônica de Goiás. E lá pode colocar em prática tudo o que aprendeu sobre o instrumento – mas não só. “O fato de ter começado em Heliópolis, dentro do espírito do ensino coletivo, te faz pensar não apenas no seu desenvolvimento, mas também no do grupo, no contexto em que você está inserido. Isso faz toda a diferença em uma orquestra.”

Evelly parece saber bem o que quer – e quem é. “Sou uma pessoa muito agitada, mas compreensiva. E sempre muito emocionada”, ela diz, logo de início. Tem cara de arteira também, não? “É, acho que sou um pouquinho”, responde, com um sorriso maroto. “Mas acho que tudo isso ajuda na hora de fazer música, que é quando você pode ser quem você é. Eu quando toco sinto que posso ser eu mesma. É legal.”
Evelly toca violoncelo. Foi ela que escolheu. “O violino tinha um som meio estridente, eu achava irritante. E o contrabaixo me dava arrepio”. Por que? “Não sei, ué, me dava”. Tá certo. As aulas começaram depois de três meses de instituto, em 2012, “mas eu avancei rápido, porque dei meu melhor”. Chegou até a ir mal na escola, mas a mãe condicionou a permanência na música ao desempenho nas provas. “Então eu estudei bastante e agora está tudo bem.”.
Antes do violoncelo, Evelly já cantava no coral. “Eu adoro cantar, mesmo em casa eu canto para dormir. E eu gosto de aparecer, sabe? Então, o coral foi bom porque perdi toda a timidez e comecei a me relacionar melhor com as pessoas, com os meus colegas. Cantar e tocar em grupo é legal, gosto mais do que sozinha”. Peraí: mas você não gostava de aparecer? “Sim! Mas sozinha, se você erra, todo mundo percebe.”
Evelly nasceu em Heliópolis, onde vive até hoje. A mãe é grande incentivadora. “No começo, ela não queria que eu fosse, porque tinha medo que eu saísse de casa ou fosse para o ponto de ônibus sozinha. Mas hoje diz que eu vou ser uma grande musicista. Mas como ela é minha mãe, é claro que ela vai achar. E sai falando isso para todo mundo.” E ela própria, o que imagina para o seu futuro? “Imagino que eu vou fazer música de algum jeito, porque a música expressa tudo.”

Jerchmann está com 10 anos, mas tem um semblante sério. Pensa com cuidado antes de responder. Parece escolher as palavras. Só tem uma hora em deixa escapar um sorriso mais solto. É quando pergunto a ele como imagina que deve ser a experiência de tocar em uma orquestra sinfônica. “Vergonhoso demais!”
Jerchmann nasceu em Petrolina, em Pernambuco. Com “cinco ou seis” anos veio para São Paulo. O pai trabalha como pedreiro, a mãe como diarista. E um dia ele os procurou para dizer que queria entrar no Instituto Baccarelli. “Eu tinha 9 anos e um amigo da escola já estudava aqui e disse que era legal. Então pensei em tentar.”
Ele já ouvia música em casa, música gospel, que acompanhava também na igreja, onde os irmãos mais velhos já tocavam. “Aqui eu comecei no coral, cantando. E depois fui tocar percussão, porque sempre gostei de ouvir a bateria.” E o que mais o interessa na possibilidade de fazer música? “Eu gosto muito de tocar mas é bom também porque você pode fazer isso ao lado dos seus amigos, em conjunto. Na escola, é mais difícil e os professores estão sempre dando bronca. Aqui a gente tem tranquilidade para estudar, para conviver com as pessoas. Minha mãe sempre teve muito medo de que eu saísse de casa, então se eu não tivesse a música eu provavelmente não teria essas experiências todas, e isso não seria legal.”
Tocar em uma orquestra, como ele mesmo diz, deve dar vergonha. Mas o objetivo, pelo menos por enquanto, é esse. “É o que eu pretendo, além de tocar na igreja. Apesar da vergonha, quando vejo eles tocando acho que estão gostando”. Os pais dão todo o apoio. “O meu pai sempre diz que eu vou poder ser um profissional um dia. Acho que ele fica feliz com isso.” Mas tem tempo até lá. Por agora, o negócio dele é estudar. E ouvir música. “Eu gosto muito de Adoniran Barbosa e ouço muito rock com os meus irmãos, mas ainda não sei falar os nomes das bandas em inglês.” Por enquanto.

“Quando estou no Instituto Baccarelli esqueço-me de todos os meus problemas, esqueço-me do mundo afora e só penso em fazer o que mais amo: música! As oportunidades que tenho aqui eu certamente não alcançaria em nenhum outro lugar do mundo, com nenhuma outra profissão. Meu mundo não seria o mesmo sem o meu violoncelo.”

Juan tinha um sonho de infância, compartilhado com milhares de meninos mundo afora: jogar futebol. Esteve bem perto, aliás, de realizá-lo. Com 13 anos, foi campeão paulista sub-13 com o Santo André, empurrão necessário para iniciar uma carreira nos campos. Ele só não contava com uma coisa: a música apareceu em sua vida. E com força.
Nascido em Heliópolis, Juan tinha 7 anos quando viu pela primeira vez um violino. “Achei genial”, ele conta, lembrando que a mãe tinha um amigo que trabalhava no Instituto Baccarelli. “Foi aí que me inscrevi. Eu só conhecia o violino, nem tinha internet na época para olhar os outros instrumentos da lista. Mas quando cheguei, fiquei dividido com relação ao violoncelo.”
As primeiras aulas eram “uma diversão”. A seriedade ficava reservada aos treinos de futebol. “Eu levava as duas coisas, mas o futebol falava mais alto. Até que eu fui crescendo e um dia entrei para o naipe de violoncelos da orquestra juvenil. Ali alguma coisa aconteceu”, diz, com o sorriso largo, o olhar vivo. “Aí foi ficando puxado, era treino todo dia, e os ensaios. Eu precisava escolher. Conversei com minha mãe, com os professores. E me dei conta de que, na música, meu caminho dependeria apenas de mim, do meu trabalho, da minha relação com o instrumento.”
Hoje com 17 anos, ele não se arrepende da escolha. “Os amigos não entenderam muito. No começo me chamavam para jogar bola no fim de semana, para sair com as meninas, e eu não podia, tinha ensaio, tinha concerto. E a música clássica era algo estranho. Mesmo para mim, foi algo que surgiu só quando entrei no instituto. Então tem um preconceito. Mas isso já está mudando aqui em Heliópolis, o nosso trabalho já é compreendido e celebrado.”
No meio deste ano, Juan saiu pela primeira vez do Brasil, para participar de concertos na Suíça ao lado de colegas do Baccarelli. “Foi uma loucura, tive 20 dias para tirar o passaporte. Mas lembro de um momento especial, quando contei para minha mãe da viagem e o olho dela encheu de lágrimas de emoção”. E o que achou da Europa? “Muita coisa, que ainda não consigo colocar em palavras. Foi tudo muito intenso e só quando estava arrumando a mala para voltar ao Brasil é que começou a cair a ficha de tudo o que tinha acontecido durante a viagem.”
Juan é fã do violoncelista Gautier Capuçon – ele toca muito. Mas não fica de olho apenas na excelência técnica do músico francês. Quer, como ele, ser um grande solista, mas apostar também na música de câmara, quem sabe tocar em um quarteto. “Acho que um grupo como esse permite que a gente coloque em prática uma lição importante que aprendemos aqui, a necessidade da parceria, de ajudar uns aos outros na hora de fazer música”.
Enquanto isso, o sonho agora mudou: quer sair do Brasil para completar os estudos. “As portas vão se abrindo então é importante me preparar, estudar o idioma, guardar dinheiro.” E, no tempo livre, correr para o campo mais próximo e jogar bola, claro.

Foi na raça mesmo. É assim que Leandro Cândido explica seu começo na música. Ele, aos 6 anos, já havia tocado flauta doce em um projeto social em Piracicaba. Seu pai tocava trompete, o avô foi cantor de rádio. “Então tinha a herança. Mas quando, com 11 anos, fui tocar flauta na Banda da Guarda Mirim, tive que me virar, não tinha professor, fui descobrindo tudo sozinho”, ele conta. “Mas tinha que ser, porque desde o começo eu soube que queria fazer música.” Mas as dificuldades não foram poucas.
Aos 17 anos, Leandro foi pai pela primeira vez. “Foi a hora em que me dei conta de que, se eu gostava de música, também precisava viver dela, para poder sustentar minha filha. Então fui estudar mais. Entrei no Conservatório de Tatuí, para ter um ensino mais formal, para aprender mesmo música. Depois, entrei na faculdade, na Unesp.” A rotina era puxada. Ainda vivendo em Piracicaba, vinha estudar em São Paulo, mas também já dava aulas para crianças em Ourinhos. “Era puxado, mas tinha muita coisa em jogo, e eu queria conquistar uma situação melhor para mim. Vir para São Paulo era um passo necessário. Mas eu mal tinha dinheiro para comer, não tinha a minha própria flauta. Lembro de ganhar um concurso, pegar o cheque, colocar no bolso, mas não ter como pagar a pizza com os amigos para comemorar.”
Na Unesp, conheceu um professor que dava aulas de violoncelo no Instituto Baccarelli. E, em 2008, entrou para o projeto. “Foi uma experiência incrível, tive aulas com o Rogério Wolff, era um momento especial.” Entrou para a Sinfônica Heliópolis mas o nervosismo o atrapalhou nos ensaios de seu primeiro concerto, a ponto de ser substituído pelo maestro. “Passei seis meses então estudando para fazer a reavaliação e o pessoal gostou do resultado. A sonoridade melhorou, a relação com o instrumento e também a concepção do que era fazer música.”
Nesse sentido, foi fundamental a experiência de viajar para a Alemanha com o grupo, em 2010. “A gente vê a música erudita como algo sério demais, sempre rodeado de tensão para quem toca. Mas lá era o contrário, aquela música fazia parte da vida das pessoas, era como se fosse a música popular deles. Era tudo mais livre”, relembra. Com o tempo, começou a dar aulas no instituto. A filha cresceu, está com 15 anos, já passou pela Baccarelli, estudou violoncelo, mas hoje quer ser bailarina. Ele casou de novo, teve mais um bebê, que completa em breve dois anos. “O Baccarelli transformou-se de fato em uma família. Muitos de nós continuamos morando aqui, vivendo juntos, para não perder esse aspecto, tão importante. Volto sempre para Piracicaba para cortar o cabelo e ouço histórias de amigos que foram presos, alguns morreram. O senso de comunidade que temos aqui é muito valioso.”
Não é por acaso que Leandro pretende continuar colaborando com o instituto pelo tempo que puder. Enquanto isso, ganha forma em sua mente um outro projeto. Fico pensando no uso que fazemos da flauta aqui no Brasil, do choro até a música erudita. Há uma linhagem de intérpretes que sugere a existência de uma espécie de escola de flauta brasileira. A gente olha a música brasileira e o instrumento pelo olhar estrangeiro ainda. E a minha ideia é fazer o contrário, estudar um caminho nosso de uso da flauta, pesquisando repertório e encomendando novas obras.”

“Além da excelente oportunidade de tocar na Orquestra Sinfônica Heliópolis, o Instituto Baccarelli proporciona um ambiente de constante aprendizado com masterclasses, workshops, palestras periódicas e ótimo corpo docente. É uma alegria muito grande poder participar do dia-a-dia de um projeto como esse!”

Há alguns anos, a cena se repetia algumas vezes por semana, durante os meses de inverno. Monitor da turma infantil de violoncelo do Instituto Baccarelli, Marcos Mota sabia que o frio acabaria fazendo a molecada ficar em casa. Caminhava então pelas ruas de Heliópolis, de casa em casa, chamando a turma. E, com eles, seguia para a aula. “Quando você aprende a importância que a música tem na sua vida, você sente o desejo muito forte de retribuir, de passar isso para os pequenos”, conta.
Marcos entrou no instituto aos dez anos. Gostava de cantar no coral, mas a revelação veio um pouco depois, quando conheceu o violoncelo. “Eu comecei a tocar e a sensação era diferente. Normalmente, a criança quer ser isso ou aquilo. Eu não fui assim. À medida em que fui estudando é que me dei conta de que a a música era o que eu queria. Não só por ela, mas por tudo que ela me trouxe.”
E o que ela trouxe? “Mais responsabilidade, um senso de disciplina. E a cabeça começa a se abrir para uma série de coisas. Você se dá conta de que pode viver em um mundo maior do que aquele que você conhece. Foi muito forte perceber que nascer e viver em uma favela não precisava significar falta de chances.”
Hoje com 26 anos, Marcos tem no currículo estudos na Espanha, em Portugal e na Alemanha. Em 2014, quis conhecer outra orquestra, deixou o instituto e entrou para a Sinfônica de Santo André. “Foi bom para ampliar o meu conhecimento do que é a vida musical”, ele explica. O instituto, porém, seguiu dentro dele, que hoje dá aulas para alunos de 7 a 11 anos. “Eu converso muito com eles, falo da necessidade de estudar, de como é bom aprender, explico que não há problema em errar. Com isso, espero que eles também possam ampliar o mundo deles, como um dia eu fiz.”

“O trabalho do Instituto Baccarelli nos evidencia o poder transformador da música e nos faz acreditar em um mundo melhor. Tenho o prazer de integrar a Orquestra Jovem Heliópolis, um grupo sinfônico de qualidade e comprometimento com a arte inigualável.”

 

Conheça a história de Mariana Freires!

“Fazer música é uma forma de comunicação, muito direta, ainda que subjetiva. No caso da música clássica, é um gênero que se reproduz a partir de um sistema de outras épocas, quase arcaico. Mas a comunicação ainda é fundamental. Então, se nós jovens não passarmos isso adiante, se não pensarmos em novas formas de apresentar o que fazemos, teremos um problema.” O comentário é sério – mas vem acompanhado de um sorriso solto, que revela acima de tudo a paixão de Mariana Soares Ferreira pelo fazer musical.

Difícil acreditar que a jovem que hoje pensa no futuro da música clássica, na infância não gostava muito de fazer música. Nada contra os compositores, que fique claro. O problema era a timidez. “Quando eu tinha 9 anos, uma amiga da minha mãe disse para ela me colocar no Instituto Baccarelli. Ela falou que era bom para ocupar a cabeça. E lá fui eu cantar no coral. Eu detestava!”, ela conta, divertindo-se. “Eu era muito fechada, não conseguia me soltar, tinha vergonha dos professores, dos colegas.”

A música foi um belo remédio. E, aos 12 anos, ela escolheu o seu instrumento: a viola. “Eu nunca gostei muito dos sons agudos. A viola, por sua vez, era mais grave, a sonoridade tinha um colorido bonito”. Ela não lembra quantos anos tinha quando passou a integrar a primeira orquestra. “Mas eu lembro do pânico, eu não sabia nem mesmo afinar as cordas direito”, ela conta, repassando então na memórias as primeiras peças de sua carreira: a suíte Peer Gynt, de Grieg, a Marcha Pompa e Circunstância, de Elgar, e a Suíte Carmen, de Bizet.

A afinação, claro, logo deixou de ser um problema. Mas quando ela soube que seria uma musicista? “Acho que é algo que surge com o tempo. É uma construção, e por isso é mais sólido. À medida em que você vai melhorando, vai aprendendo a se expressar pela música, concerto após concerto, aula após aula, aquilo ganha muito sentido. É difícil, não é uma trajetória fácil. Você estuda muito e às vezes se sente refém do instrumento. Mas dia a dia você cresce e não pensa em fazer outra coisa.”

Hoje, Mariana, além de tocar na Sinfônica Heliópolis, é monitora de naipe da Orquestra Juvenil (“o naipe de violas é sempre o mais bagunceiro”, diz, com um sorriso maroto) e cursa o terceiro ano da Universidade de São Paulo. “A faculdade foi um momento importante. Eu sempre tive apoio em casa, mas na hora do vestibular todo mundo ficou com um pouco de dúvida. Mas eu insisti.”

No curso universitário, Mariana sentiu uma vez mais a sensação com a qual aprendeu a conviver no Baccarelli. “Ter aprendido música no instituto definiu quem eu sou, minha forma de ver as coisas. Eu entendi que o mundo é muito maior do que aquilo que está à nossa volta. Conheci lugares e tive experiências que sem a música eu não teria. Foi isso que me levou à faculdade. E lá eu me dou conta diariamente do quanto há à nossa volta para aprender, para conhecer.”

Mariandeceia chegou a Heliópolis com um ano de idade. Veio com a família de Garanhuns, na região agreste de Pernambuco. “Foi aqui que eu cresci, é a minha casa, minha comunidade. E foi onde eu conheci a música também.”
Ela estava com 8 anos. E até aos 15 cantou no coral do Instituto Baccarelli, ao lado dos três irmãos. São dois mais velhos, ela explica, e uma mais nova. Aos 11, passou a estudar também um instrumento. Qual ela queria? “O saxofone, porque era o que a Lisa dos Simpsons tocava”, lembra, divertindo-se. Acabou no violino. “Mas eu gostei, na verdade, porque o som era muito legal e a turma também.”
Com 14 anos, ela passou a integrar a Orquestra Juvenil Heliópolis. Ela se lembra da emoção do primeiro dia em que se juntou ao grupo? “Nossa, foram várias. Antes do ensaio, era um nervosismo muito grande, uma ansiedade. Mas logo que o ensaio começou, sumiu tudo. De repente, estava todo mundo tocando junto e o som que era produzido era diferente de tudo que eu já tinha ouvido. E eu fazia parte daquilo.”
Quatro anos mais tarde, entrou para a Sinfônica Heliópolis. A rotina de ensaios era mais exigente, o repertório também, a relação com o maestro, “tudo”. Hoje com 22 anos, ela define este momento como central em sua trajetória. “Essa passagem para a sinfônica foi muito significativa, pois foi um reconhecimento pelo estudo. E até mesmo na comunidade as pessoas começam a te ver de um jeito diferente. Foi nessa hora que entendi que iria ser uma musicista. Porque por mais que você goste, você olha à sua volta, o entorno, e vê que seus colegas de escola estão começando a procurar emprego, estão tentando se virar na vida. Mas estar na orquestra foi um sinal de que eu estava trilhando um caminho legal.”
Em 2016, ela começou a orientar alunos de 7 a 10 anos, além do naipe dos segundos violinos da orquestra juvenil, seu antigo grupo. O sorriso se abre quando fala da experiência. “Eu olho para eles e fico pensando em como eu posso ajudar para mudar para melhor a vida dessa criança. É especial poder fazer a diferença na vida de alguém. Como aconteceu comigo, quero que elas saiam transformadas, não apenas com uma oportunidade de caminho profissional, mas principalmente com uma visão de mundo diferente, um olhar com relação ao outro, conscientes da necessidade de diálogo. E fazendo música com amor, sempre.”

“Comecei meus estudos no Instituto Baccarelli há 13 anos, hoje sou professora de percussão e ainda aprendo muito todos os dias. Sempre soube aproveitar todas as oportunidades que tive no Instituto e o curso da Filosofia Suzuki foi mais uma delas: mesmo não sendo direcionado especificamente à percussão, consegui aperfeiçoar minha metodologia de ensino, além de quebrar paradigmas. Há diversas associações possíveis e agora aplico a Filosofia Suzuki nas minhas aulas de percussão coletiva e consigo ver nas crianças e em mim uma evolução enorme a cada dia.”

Maryana Cavalcanti estava com 18 anos quando, em outubro de 2010, desembarcou ao lado de seus colegas de Orquestra Sinfônica Heliópolis em Bonn, na Alemanha. Era a terra de Beethoven, compositor de quem eles tinham a missão de interpretar a Sinfonia nº 8. “Quando você cresce tem aquele sonho de poder conhecer o mundo. E de repente ele estava se realizando e, melhor ainda, em uma viagem ao lado de tantos amigos, para fazer música e ainda por cima levar o nome do Brasil de uma maneira diferente para o exterior. Foi um momento inesquecível.”
A música sempre foi uma presença constante na vida de Maryana, desde a infância, por meio do rádio, companhia inseparável da mãe. A irmã foi a primeira a entrar para o Instituto Baccarelli e, pouco depois, aos 11 anos, Maryana seguiu o mesmo caminho. Começou no coral e logo passou a ter aulas de bateria e flauta transversal. A opção veio depois de pouco mais de um ano. “Eu acabei decidindo pela percussão. Eu gostava da flauta, mas eu tinha 15 anos e tocar percussão tinha um aspecto divertido, dinâmico, a lembrança que tenho das aulas era de muita diversão.”
A diversão ao fazer música Maryana nunca perdeu. Mas quando entrou na Orquestra Juvenil Heliópolis, ela diz ter ganho uma nova perspectiva. “Ficou tudo mais sério. Na orquestra, me dei conta de que estava ao lado de outros músicos, que se prepararam, estudaram. Se eu queria fazer parte do grupo, também tinha que estar pronta.” Era uma forma de respeito a ela própria e aos companheiros. Veio, então, a viagem à Alemanha. E a certeza de que estava na música o futuro que imaginava. “É uma carreira difícil, o mercado é pequeno, precisa de muita dedicação. Mas eu lembro do apoio em casa, minha mãe dizia: é isso que você quer? Então vai estudar.”
Maryana entrou na faculdade. E então descobriu outra paixão: dar aulas. “Eu lembro que, no primeiro ano, nem pensava nessa possibilidade. Mas, quando cheguei ao final do curso, ensinar havia me conquistado.” Ela hoje, além de tocar na Sinfônica Heliópolis, dá aulas no Instituto Baccarelli. “É interessante porque ao mesmo tempo em que você ensina o instrumento, se dá conta de que não se trata só disso. Fazer música mostra a importância de compartilhar, de dialogar com quem está do seu lado, e isso é uma lição que te acompanha mesmo que você não se torne um músico”, ela explica – e conta que ainda se surpreende com a inversão de papeis. “Quando a gente começa a estudar, olhar para os professores como uma referência. E hoje eu me dou conta da responsabilidade que é ensinar essas pessoinhas, de ser um modelo para elas. Então, é sempre necessário ter em mente que, no final das contas, o que a música te oferece é a possibilidade de ser uma pessoa melhor.”

Rafael Pedro tinha 12 anos quando entrou pela primeira vez no Instituto Baccarelli. “A lembrança que eu tenho? Eu fiz a prova para o coral e até hoje não sei como passei”, ele conta, divertindo-se. “Eu não sabia cantar, quer dizer, nunca tinha cantado antes na minha vida.” Mas ele passou – e passou também a fazer uma série de coisas pela primeira vez. “E, principalmente, descobri que eu tinha uma muitas possibilidades à minha frente.”
O começo foi difícil. As aulas do coral eram divertidas, repletas de aprendizado, entre eles o de conviver com um grupo – e fazer música em conjunto. “Mas quando fui estudar violoncelo, era complicado, o instrumento era muito grande, eu ficava meio desajeitado. Só que desde o começo surgiu uma paixão por fazer música.”
Foi uma descoberta importante, seguida de outra ainda mais intensa. “Quando entrei na orquestra e fiz o primeiro concerto eu me dei conta do público. E aquilo mexeu comigo. Na verdade, mexe até hoje. O maestro Roberto Tibiriçá falava que era um momento metafísico o do concerto e acho que é por aí mesmo. É onde a música de fato acontece. Um instante único, especial, que nunca mais vai se repetir daquela mesma maneira.”
A essa altura, “eu já sabia que a música era a minha vida”. “Mas não dá para dizer que não houve momentos em que pensei em parar. Lembro que meus pais sempre me apoiaram. Minha mãe tinha um bebê, eu queria ficar em casa para ajudar, mas ela não deixava, os dois insistiam para que eu continuasse. Mas tem também a dificuldade técnica, que você sempre está lutando para superar. E quando tive filhos, era natural que eu me perguntasse se não deveria tentar alguma outra coisa.”
A paixão, no entanto, falava mais alto. E não só isso. “No fundo, você se dá conta de que a música, quando você se esforça, trabalha, torna-se um caminho profissional. E na verdade, desde a infância, eu acho que não tinha nenhuma outra perspectiva. Foi a música que me deu um norte e eu precisava seguir apostando nele. Além disso, tocar mexia com a emoção e o que eu sentia era muito precioso, ainda mais porque eu podia compartilhar isso com as pessoas.”
O sonho de Rafael é entrar para uma grande orquestra profissional. “Quer dizer, eu gostaria mesmo de ter um quarteto de cordas, porque acredito que em um grupo de câmara você tem maior liberdade e independência para pensar a música, a sua arte, o repertório, tudo.” Em ambos os contextos, porém, ele tem suas preferências. É difícil escolher, claro, mas ainda assim ele chama atenção para Mahler, no mundo sinfônico, e Beethoven, no camerístico. “Em Mahler, acho fascinante a grandiosidade, a carga emocional sempre muito grande. Beethoven me pega pela personalidade dele, o caráter, e, ao mesmo tempo, a capacidade de ser doce. Mas, no fundo, ambos falam mesmo é da condição humana.”
Rafael atualmente dá aulas no instituto, para alunos de 9 e 10 anos. Sente prazer especial em passar a eles o que aprendeu. “Mas eu sou pai, então a relação é sempre repleta de carinho, é assim eu acho que você passa para eles o carinho pela música. Foi o que aprendi aqui, tocar e ensinar com amor, junto com a importância da disciplina.”

“A minha passagem pelo Instituto Baccarelli foi muito importante para meu crescimento musical e pessoal! Foi um momento único para mim, pois, nesses anos, cresci e me desenvolvi intensamente em algum aspecto, a todo momento. A palavra que resume tudo o que eu passei no Bacca é GRATIDÃO!”

Se Robinho Carmo disser que tem uma meta, pode acreditar: ele está falando sério.
A história deve ser contada desde o início, quando a música não era ainda uma possibilidade real. “Meus pais eram músicos, meu avô era violinista. Eu adorava desde pequeno o instrumento, mas não pensava em tocar seriamente. Eu comecei e parei de estudar duas vezes, com quatro e seis anos. Não gostava de ficar horas praticando, queria ficar na rua, com a galera.” Aos 9, uma nova tentativa. Deu um pouco mais certo. “Mas até os 17 anos eu estava decidido a fazer qualquer outra coisa, quis ser médico, entrar para a aeronáutica.”
E o que aconteceu aos 17 anos? Difícil explicar. Foi “um clique”. “De uma hora para outra, algo mudou. E fui atrás de um professor, escrevi para um bando de gente. Foi um momento difícil, eu fui rejeitado por muita gente. Mas conheci um outro violinista, o Renan Rodrigues, que era um pouco mais velho do que eu. Estudei com ele durante quatro meses. Foi um recomeço completo. E, como ele estava se mudando para a Hungria, me apresentou à professora dele, a Andrea Campos. Ela me ouviu, disse que eu tinha potencial, mas que precisava estudar muito se eu quisesse entrar em uma orquestra, porque o nível hoje estava muito mais alto.”
Foi o que Robinho fez. Pouco depois, prestou a prova no Instituto Baccarelli e entrou para a Orquestra Juvenil Heliópolis. “Eu tocava na última estante”, ele conta. Um dia, assistiu à Sinfônica Heliópolis tocando a “Sinfonia nº 1” de Mahler. Foi quando se colocou uma primeira meta. “Eu iria tocar naquela orquestra. E me dei um prazo de dois anos. Minha professora achou que era possível. E eu comecei a estudar loucamente.”
Não foi preciso esperar dois anos. “Abriram um edital para a sinfônica. Eu tinha duas semanas para me preparar. E resolvi fazer a prova.” Passou para o naipe de primeiros violinos. “Foi um salto muito grande. Lembro que no primeiro ensaio, eu mal havia me achado na partitura e todo o naipe já estava lá na frente. Mas a experiência foi incrível.”
Hora, então, de uma nova meta: ser spalla do grupo. “Seis meses depois, abriu o edital para a vaga de líder dos segundos violinos. Mas passei muito mal no dia da prova, não consegui sair de casa e perdi a chance. Só que um pouco depois abriu outro edital, agora para a vaga de spalla. E lá fui eu tentar.” Ele passou como concertino, e o posto de spalla ficou vago. “Quando não há um spalla, é o concertino que acaba assumindo. O programa seguinte era com a Sinfonia nº 3 de Mahler, que tem muitos solos para o spalla. No primeiro ensaio, o maestro Isaac Karabtchevsky virou para mim depois de um deles e perguntou: quem é você menino?. Eu gelei.”
Robinho achou que tinha pisado na bola, mas a surpresa do maestro era positiva. “Até que no dia do concerto, antes de entrar no palco, o maestro Edilson Ventureli me chamou e disse: conversamos com o maestro e resolvemos: você agora é oficialmente o novo spalla. Eu entrei no palco com aquela notícia. Foi uma das experiências mais legais da minha vida, eu mal conseguia me segurar. No último movimento, eu olhava para a orquestra e tinha um bando de gente chorando, todos ficaram emocionados”, conta. “Isso é algo que aprendi no Baccarelli, essa união, esse senso de conjunto, de grupo. Todo mundo ajuda todo mundo. Você confia no colega que está do seu lado, há uma troca que influencia na música que fazemos.”
Com o passar do tempo, mais uma meta: sair do Brasil. “Depois disso, eu comecei a me perguntar o que eu poderia fazer em seguida, queria ir cada vez mais longe. Foi então que, depois de pesquisar bastante, pensei em me mudar para a Europa, para estudar e também para experimentar a cultura europeia. Conheci o Conservatório de Lausanne, e fiz a prova.” Passou de novo. “Recebi a ajuda de muita gente, apoio, o instituto me ajudou em tudo e eu vim.”
Robinho está com 21 anos e vive em Lausanne há cinco meses. Mal tem palavras para descrever o quão incrível tem sido a experiência. Pergunto a ele se já está pensando no futuro, em uma nova meta. “Claro. Meu sonho é ser um solista. Sei que é difícil falar nisso, eu comecei tarde no instrumento e também demorei para aceitar que eu podia ter esse sonho, a gente mesmo vai colocando empecilhos, sabe? Mas eu estou trabalhando muito para isso e tenho esperança de conseguir.” Alguém duvida?

Tamires estava com 16 anos quando soube que subiria ao palco da Sala São Paulo para interpretar a Sinfonia nº 2 de Mahler. A responsabilidade era enorme. “E seu errasse, já imaginou?” Ela havia se preparado, “comido a partitura”, como diz. Mas o nervosismo era inevitável. Ao menos até colocar-se no palco, ao lado dos colegas da Orquestra Sinfônica Heliópolis. “Foram dois segundos em que pensei: eu estou aqui. Cada não que eu havia recebido na minha vida, eu respondi naquele momento.”

Tamires viveu desde pequena em Heliópolis. Aos 8 anos, um panfleto na igreja a levou ao Instituto Baccarelli. Começou na música cantando no coral. Dois anos depois, veio o instrumento. Ela queria violino ou violoncelo, mas as mãos eram muito pequenas. Oboé? Não tinha vaga. Mas ela conseguia segurar a trompa. Pronto, escolha feita. Na infância, recebia o apoio da família. Mas à medida em que foi crescendo, as coisas mudaram. Primeiro, a pressão para que arrumasse um emprego. Depois, viu-se sozinha, aos 16 anos, quando a mãe se mudou para Goiás.

Mudar-se com a mãe significaria abandonar a música. E isso não era uma opção. Foi morar então com a madrinha, grande incentivadora até hoje. Aos 18, alugou uma casa só sua – mas não por muito tempo. “Trouxe minha irmã para ficar comigo. Ela morava em Cabo Frio, no Rio. Fui lá e vi que o destino dela seria trabalhar desde cedo. E eu resolvi ajudar, trazer ela para cá, apresentar a música para ela. Se eu posso oferecer uma chance melhor, tenho que fazer isso.”

A música, afinal, foi uma companheira fundamental para Tamires, hoje com 22 anos. E é por isso que ela quer passar essa mensagem a novas gerações, como professora. “Quero oferecer para as crianças o que o Baccarelli me ensinou. A gente vê o que está à nossa volta, drogas, tráfico, famílias destruídas. Quando você é bem pequena, você olha tudo isso e não sabe o que vai ser de você. O que a música me deu foi a sensação de que eu poderia ser alguma coisa. Sem isso, não sei onde eu estaria.”

Em 2006, Tayanne estava para fazer 14 anos quando sua mãe sofreu um grave acidente. “Meu pai trabalhava à noite. E eu, como era a irmã, mais velha, tinha que cuidar da casa, dos meus irmãos. Eu não sabia qual era a gravidade do estado da minha mãe, meu pai protegia a gente e não contava. Mas todo mundo chegava em casa e começava a chorar, era muito triste, então sabia que tinha acontecido algo.”
Tayanne nasceu em São Caetano, mas cresceu em Heliópolis. Tinha um “contato informal” com a música na igreja, mas nunca havia de fato se interessado. Quando uma tia sugeriu à mãe que a inscrevesse no Instituto Baccarelli, não gostou da ideia. “Eu preferia ficar em casa ajudando”. Mas a família insistiu e ela foi. Gostou do violoncelo, mas não passou na prova. Tentou de novo. Mostraram a ela a trompa. “Fiz o teste, passei e comecei gradualmente a gostar do instrumento.”
A tragédia familiar poderia ter afastado Tayanne da música. Mas aconteceu o contrário. “Acabou que foi essa a época em que mais me apeguei ao instituto e à música. Comecei a estudar ainda mais. Com 15 anos, comprei um instrumento e em 2009 passei a tocar na orquestra.” Não era uma rotina fácil. Estagiária na Sinfônica Heliópolis, ainda integrava o grupo juvenil e, à noite, fazia o ensino médio. Ainda assim, entrou na faculdade e, em 2011, foi efetivada na sinfônica.
Dois anos depois, enfrentou um desafio que considera especialmente marcante: a “Sinfonia nº 3” de Mahler na Sala São Paulo, com Isaac Karabtchevsky na regência. “Ser a primeira trompa nessa peça foi especial, mas o naipe todo trabalhou demais para fazer um concerto bonito”, ela conta. E ainda se surpreende: “Hoje eu penso: nossa, como eu toquei aquilo? As pessoas achavam bom? Parece que quanto mais você sabe e mais você aprende, mais precisa saber.”
O desejo de melhor sempre é louvável – mas, no meio musical, Tayanne tem o que os críticos gostam de definir como “som especial”. Digo isso a ela, que não parece muito acreditar. Mas, de qualquer forma, não se trata de opinião. Basta ver sua trajetória. Em 2015, tocou em um concerto conjunto com a Osesp, no qual foi interpretado o “Gurrelieder”, de Schoenberg. O desempenho levou a um convite para ingressar na Academia da orquestra, onde está até hoje. “Lá, sou a única aluna de trompa, então tenho que lidar com muitas questões sozinha”, explica. Ela tem vontade de sair do Brasil. Já recebeu bolsa para estudar em Indiana, nos Estados Unidos, mas não passou na prova de inglês. Vai tentar de novo. Afinal, é um sonho que sempre teve. Descobrir o mundo. “Mas o meu coração ainda está aqui no instituto. Aqui é a minha casa.”

O Instituto Baccarelli ainda funcionava em uma antiga fábrica de sucos na Estrada das Lágrimas quando Thiago Araújo lá pisou pela primeira vez, em 2007. “Um amigo meu que tocava trompete ia participar de uma masterclass com músicos alemães, mas teve um problema no dente. Ele então me perguntou se eu não queria ir”, conta. Foi “quase” por acaso – mas um acaso que definiria os rumos de sua vida e carreira.
Como boa parte dos estudantes de música, Thiago sonhava em ser solista. Mas estamos nos adiantando. Antes, é preciso lembrar onde tudo começou. Foi em Cubatão. Seu pai regia o coral e tocava na banda da igreja. Orientado por ele, com 9, 10 anos, Thiago começou a tocar o trompete na fanfarra da escola. E, aos 12, entrou para a Banda Marcial. “Ali tudo começou a ficar mais sério, eu ganhava uma ajuda de custos com a qual podia comprar as passagens para vir a São Paulo estudar na Universidade Livre de Música. E, mais tarde, acabei me mudando de uma vez.”
Foi quando se deu aquela masterclass. “Em seguida recebi o convite para tocar na Sinfônica Heliópolis como convidado. Foi meu primeiro contato com uma orquestra. E um mundo novo se abriu. Eu sempre quis ser solista, mas ali o coração começou a ficar dividido. Gostei da experiência, do repertório”, ele conta. A sensação foi ficando cada vez mais forte uma vez que, de convidado, Thiago passou a ser músico do grupo.
Mas o contato com o Baccarelli trouxe outras lições e descobertas. “Eu tinha uma trava psicológica, na extensão aguda do instrumento, sempre dava problemas”, ele explica. Em uma audição interna, ele lembra que “simplesmente travei”. Thiago pensou em desistir. “Mas o maestro Edilson Ventureli chegou para mim e disse: você tem um potencial enorme, mas tem que acreditar nele”. Era preciso dar um salto e Thiago recebeu uma chance até a próxima audição. “Foi um momento de virada, possível por eu estar em contato com pessoas que acreditavam em mim mais do que eu mesmo estava pronto a acreditar. Ali, alguma coisa mudou.”
Os passos seguintes mostram que a decisão de seguir adiante foi acertada. Em 2014 Thiago entrou para a Academia da Osesp – e, com três meses de estudo, já estava tocando com o grupo, participando inclusive da gravação de um CD com obras de Prokofiev, substituindo de última hora um músico que havia passado mal. Oito meses depois, foi aprovado para a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, onde está até hoje, “podendo tocar ao lado de amigos e professores que me viram crescer”.
O vínculo com o Baccarelli, no entanto, continua. Ele hoje dá aulas para alunos entre 10 e 14 anos. “É algo que me leva de volta à infância, aos ensinamentos do meu pai, que sempre insistiu no dever que a gente tem de ajudar, de contribuir. Isso é essencial. Posso dar aula para 20 alunos e nenhum deles seguir na música. Mas espero que eles saiam dessa experiência como pessoas melhores, honestas, de caráter, que a partir da experiência de um dia ter feito música saibam viver melhor em sociedade.”

“Estudar no Instituto Baccarelli permite que entremos em contato com uma pluralidade de experiências presentes no fazer musical. Ao longo dos anos, aprimorei-me como músico de orquestra e professor. Por meio do Instituto, participei de masterclasses, workshops, cursos de formação de professores e conferências. Uma delas foi a III Conferência Internacional Multiorquestra, na qual descobri a amplitude e a complexidade do mundo orquestral – muito além de simplesmente tocar um instrumento num grande grupo de músicos. Percebi que existem diversos ambientes fundamentais para a construção da identidade de uma orquestra e que seu modo de atuação não se restringe apenas ao musical, mas também ao educacional, visto que é o meio com o qual podemos atingir um público-alvo ainda em formação. Entendi que a orquestra deve servir a uma comunidade, fomentando o acesso à cultura e objetivando o desenvolvimento de valores sociais. Tudo que o Instituto Baccarelli já faz, desde 1996, por meio do excelente trabalho pedagógico e de seus grupos artísticos com formações diversas.”
A “Sinfonia Fantástica”, de Berlioz, e o “Concerto para violino” de Beethoven. Na regência, Zubin Mehta; como solista, o violinista Julian Rachlin. Tal combinação seria suficiente para marcar qualquer um que estivesse presente naquele concerto. Mas Thiago não estava apenas na Sala São Paulo; estava no palco e, integrando o naipe de contrabaixo, se deu conta: “Ali entendi o que é ser músico. Eu olhei para eles e entendi que uma trajetória artística se faz de estudo, de acúmulo de experiências, da procura pelo conhecimento.”
Isso foi em 2012. Thiago estava na Orquestra Sinfônica Heliópolis há apenas um mês e meio. E vivia profundas transformações. Entendê-las significa voltar ao início de sua trajetória. Ele nasceu em Recife. A adolescência foi acompanhada de música, que ele logo começou a fazer, tocando violão, guitarra, integrando uma banda de heavy metal. Na hora de prestar vestibular, esse parecia o caminho, mas ele sentia que faltava embasamento. Foi para o conservatório. E, três anos depois, em 2007, entrou na faculdade.
O contrabaixo apareceu em algum momento entre uma coisa e outra. “Eu gostava de jazz, música popular e de orquestra. Naquele período da minha vida, havia muita pressão da família para conseguir um emprego, prestar um concurso. Então eu me coloquei uma meta: se não der certo no contrabaixo, eu ia desistir da música e procurar outro caminho”, ele conta.
Na faculdade, participou da criação de pequenas orquestras. Na falta de um professor adequado, viajava para João Pessoa para ter aulas. “Mas não tinha regularidade e comecei a sentir falta disso, sentia dor tocando. Então resolvi vir para São Paulo.” A chegada não foi fácil, era preciso, antes de mais nada, encontrar um lugar para ficar. Mas os desafios foram compensados pela mudança na relação com o instrumento. “Quando cheguei em Heliópolis e entrei no Instituto Baccarelli, mudou tudo, a técnica e a percepção do que é fazer música.”
Uma percepção que ele hoje passa a seus alunos do instituto. “Você costuma olhar o mundo de acordo com as suas perspectivas. Mas isso faz com que a gente nem sempre se dê conta de quem está à sua volta, dos desafios que essas pessoas enfrentam, seus traumas, alegrias. A música, quando é vista além da pura técnica, te permite compreender o outro e, com isso, a força dos sentimentos, os seus inclusive”, ele explica. “Ao chegar aqui, eu me tornei muito mais humilde, entendendo que música não é vaidade, não é querer ser melhor do que o outro. Em Recife, eu tinha colegas que não tinham roupas, não tinham o que comer. Entendo hoje que você aprende muito ouvindo as pessoas, não só colegas músicos, mas os funcionários, gente que luta para estar onde está. Com meus alunos, me preocupo antes de mais nada em mostrar para eles que é possível, que eles são capazes de grandes conquistas. E para isso é importante que eles entendam que a música nos ensina também o que é o respeito, ajuda a entender onde estão os limites entre o meu desejo e o dos outros.

A entrevista é com a pequena Yaminah Martins dos Santos, de apenas 10 anos de idade. Mas a pergunta quem faz é ela: você já teve um sonho que se realizou? A resposta é afirmativa. “Eu quero que os meus se realizem também.” Pode contar um deles? “Eu sempre sonhei em aparecer na televisão”. Fazendo o que? “Cantando”. Por que? “Porque quando a gente canta, a gente sente liberdade no coração”.
Yaminah tem cantado desde que a memória alcança. “Minha família tem o espírito da música. Sempre que a gente viaja de carro, fica todo mundo cantando”. Não é à toa que, há um ano, quando entrou no Instituto Baccarelli, não teve problema nenhum em “soltar a voz”. Quando conversamos, estava chegando o dia de se apresentar na escola. “Eu vou cantar uma música em inglês.” E não vai ter vergonha? “Eu fico um pouco, mas quando começo a cantar, eu me sinto tão livre que é como se eu estivesse sozinha em casa. Aí me solto e sinto alegria em poder cantar.”
Há dois meses, o canto passou a dividir espaço com o violino. Foi ela que escolheu o instrumento, “é o que mais aparece na televisão”. Mas então lhe apresentaram a trompa. “O som, a forma de tocar, achei bem interessante”, ela explica. Com o final do ano chegando, vai dar uma pausa nos estudos. Mas já tem planos. “O Natal este ano vai ser perfeito, com toda a família.” E muita cantoria, claro.
Quando pensa no futuro, entre a trompa e o canto, Yaminah está dividida. “Você já foi na Sala São Paulo? Eu vi a orquestra tocar lá e acho que eles se sentem felizes de se apresentar em público. Mas eu quero ser uma cantora famosa também. Cantar todas as músicas do mundo.” A escolha é dela, claro. Mas a torcida é nossa, para que seus sonhos, sejam eles quais forem, possam se realizar. Sempre.

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