1996

O ano de 2016 marcou o aniversário de 20 anos do Instituto Baccarelli. São duas décadas importantes. Pelos milhares de jovens que tiveram suas vidas tocadas pelo projeto, com certeza. Mas não só. Ao longo desse período, a cena musical brasileira viveu um momento de enorme crescimento. E, com seu trabalho, o Instituto Baccarelli tem sido, além de símbolo dessa transformação, protagonista na busca de um cenário novo, que aposta em um fazer musical mais dinâmico, vivo e, acima de tudo, em diálogo com a comunidade.

O Instituto nasceu no final dos anos 1990 do profundo impacto que as imagens de um incêndio de enormes proporções em Heliópolis provocaram no maestro Silvio Baccarelli. Foi naquele momento que ele resolveu oferecer aos jovens da comunidade um alento, uma esperança, na forma de música. Eles começaram a ter aulas de instrumentos. Formaram uma orquestra de cordas, ainda em um espaço de sua casa na Vila Mariana. Mas não demorou para que o projeto crescesse. Em 2005, o Instituto mudou-se para uma antiga fábrica de sucos no começo da Estrada das Lágrimas, que corta Heliópolis. Quatro anos depois, um sonho realizado: com apoio da instituição Pró-Vida, foi inaugurada a sede própria, que ocupa uma área de 5 mil metros quadrados, conta com dezenas de salas de ensaio de última geração e prevê ainda a construção de um teatro que, quando concluído, fará de Heliópolis polo importante de difusão artística, se alinhando às grandes salas de concerto de todo o país.

É nessa sede que atualmente mais de 1.000 crianças e jovens desenvolvem anualmente sua relação com a música. Uma relação que começa com o canto coral. A voz é, afinal, o mais humano dos instrumentos e o ato de cantar em conjunto faz da música uma celebração do espírito comunitário, que une intérpretes e plateias. O mesmo espírito se traduz na musicalização ou no ensino coletivo de instrumentos, em que desde cedo o jovem se dá conta de que fazer música é aprender a dialogar – experiência que ele carregará consigo ao participar de conjuntos de câmara ou da atividade orquestral, em grupos infantis, juvenis e na Orquestra Sinfônica Heliópolis, que, assim, não é apenas um dos principais grupos jovens do cenário brasileiro mas, principalmente, o ponto de chegada de um trabalho de base que transcende em muito o momento do concerto. Essa transcendência está no DNA da missão do Instituto, refinada e reconhecida ao longo das últimas duas décadas: oferecer um trabalho educacional pleno, capaz de ir além da profissionalização musical, suscitando em crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social valores como autodisciplina, respeito, criatividade, convivência e senso colaborativo em grupo – essenciais à formação e ao desenvolvimento de qualquer cidadão em nossa sociedade. Em outras palavras, o ensino musical de excelência oferece as melhores possibilidades àqueles que desejem seguir uma carreira na música – e as dezenas de ex-alunos que hoje tocam nas melhores orquestras profissionais brasileiras ou seguiram para a Europa e os Estados Unidos para continuar seus estudos ou desenvolver suas trajetórias como artistas são prova disso. Mas o olhar da instituição está voltado também àqueles que, por algum motivo, não quiserem se tornar músicos. A arte e a prática musical, afinal, são compreendidas antes de mais nada como um poderoso instrumento de transformação individual. Ainda mais em um contexto de vulnerabilidade social, o que a música oferece à criança e ao jovem é algo muito maior e necessário: a sensação de pertencimento e a capacidade de, em meio à adversidade, voltar a sonhar.

Essa missão dupla tem sido reconhecida em diversas instâncias. O Instituto Baccarelli é hoje um projeto de referência entre as organizações não governamentais e sem fins lucrativos dedicadas à arte e à educação. No meio musical, o reconhecimento também é grande. Não por acaso, um dos maiores maestros do mundo, o indiano Zubin Mehta, aceitou o convite para se tornar patrono do Instituto, que hoje conta com o trabalho cotidiano de músicos do porte de Isaac Karabtchevsky, seu diretor artístico, além de estabelecer parcerias com artistas e instituições musicais de todo o planeta. Tudo isso, no entanto, foi conquistado sem que as demandas dos moradores de Heliópolis deixassem de ser ouvidas. Pelo contrário. O Instituto Baccarelli soube, nesses vinte anos, entender uma comunidade que, como o país, se transformou – e buscou se reinventar junto com ela, fazendo da troca de experiências um exercício diário e fundamental. A solidez do trabalho nasce, afinal, da capacidade de estabelecer uma ponte de contato entre aquilo que é local e o que é universal. Fazer isso por meio da música, um território a ser compartilhado de maneira livre, sem hierarquias, é reafirmar a crença em uma sociedade mais justa e digna, para todos. E também em uma atividade musical mais perene e repleta de significados, alinhando o Instituto às mais recentes reflexões sobre o tema mundo afora, de Nova York a Berlim, passando pela Venezuela e tantos outros polos de excelência.

O Instituto Baccarelli chega, assim, aos vinte anos orgulhoso dos resultados conquistados; consciente da necessidade de aprendizado diário e do privilégio de poder fazer da música uma ferramenta de transformação; grato pela colaboração de professores, patrocinadores, alunos e seus familiares e de todos aqueles que compartilharam deste sonho; e ansioso pelo que está pela frente. O trajeto do Instituto tem sido até agora o de abrir portas e caminhos. Em um mundo em rápida transformação, há muitas ainda a serem descobertas.

O sonho continua.

João Luiz Sampaio é jornalista, crítico musical, professor do Instituto Baccarelli e autor das biografias Antonio Meneses: Arquitetura da Emoção (Algol Editora, 2010) e Guiomar Novaes do Brasil (Kapa, 2010).

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