03/09/17 domingo
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Concerto

  • Orquestra Sinfônica Heliópolis

    A Orquestra Sinfônica Heliópolis (OSH), principal formação do Instituto Baccarelli, promove prática orquestral e conhecimento de repertório sinfônico a alunos avançados da instituição. Com direção artística de seu maestro titular, Isaac Karabtchevsky, a orquestra, reconhecida internacionalmente por sua qualidade artística, tem como patrono o maestro indiano Zubin Mehta, que visitou a instituição em 2005 e se encantou com o poder da música enquanto ferramenta de transformação social. Até hoje, a OSH é a única orquestra de toda a América do Sul que teve a oportunidade – e orgulho – de ser regida por Mehta. A versatilidade do grupo permite à Sinfônica transitar pelo universo da música de concerto e da música popular, mantendo alto padrão de excelência na execução das obras. Assim, já se apresentou sob a regência dos maestros Zubin Mehta, Peter Gülke, Yutaka Sado, acompanhada de Julian Rachlin, Erik Schumann, Domenico Nordio, Paula Almerares, Leonard Elschenbroich, Arnaldo Cohen, Jean-Louis Steuerman, Antonio Meneses, Ricardo Castro e de artistas populares consagrados como Ivete Sangalo, Milton Nascimento, João Bosco, Luiz Melodia, Lenine, Paula Lima, Toquinho, Fafá de Belém, Ivans Lins e Daniela Mercury, entre outros. O grupo já tocou em palcos como a Sala São Paulo, os Theatros Municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro, Gasteig (Alemanha) e Muziekgebouw (Holanda), além de ter participado de eventos como o Festival Beethoven (Bonn/Alemanha) e Rock In Rio, com Mike Patton.

     

  • Isaac Karabtchevsky regente

    Diretor artístico do Instituto Baccarelli e regente titular da Orquestra Sinfônica Heliópolis desde 2011, Isaac Karabtchevsky tem sido um dos grandes responsáveis pelo salto qualitativo dessa Orquestra. Indicado, em 2009, pelo jornal inglês The Guardian como um dos ícones vivos do país, Isaac nasceu em São Paulo e estudou regência e composição na Alemanha, sob orientação de Wolfgang Fortner, Pierre Boulez e Carl Ueter. Atuou como regente titular e diretor artístico em prestigiadas orquestras e teatros internacionais, como a Petrobras Sinfônica do Rio de Janeiro (desde 2004); Sinfônica de Porto Alegre (2003 a 2010); Orchestre National des Pays de la Loire, na França (2004 e 2009); Orquestra Tonkünstler, de Viena (1988 a 1994); Teatro la Fenice, em Veneza (1995 a 2001); Orquestra Sinfônica Brasileira (1969 a 1996). Recebeu a medalha do Mérito Cultural do governo austríaco e a comenda Chevalier des Arts et des Lettres do governo francês, além de condecorações de praticamente todos os estados brasileiros. Foi um dos criadores do Projeto Aquarius, o maior movimento de popularização da música clássica no Brasil. Desde essa experiência, nunca abandonou sua vocação de disseminar a música clássica e mantê-la viva, encontrando na Orquestra Sinfônica Heliópolis a parceira perfeita.

  • Alvaro Siviero piano

    O paulistano Alvaro Siviero acumula passagens por países como Alemanha, Portugal, Itália, USA, República Tcheca, Áustria, Polônia, França, Inglaterra, Suíça, atuando ao lado da London Festival Orchestra, Budapest Chamber Orchestra, Prague Philharmonic, Académica de Madrid, Polska Filharmonia, Sinfonia Rotterdam, Salzburg Chamber Soloists, I Musici de Montreal em turnês pela Argentina, Chile, Holanda, Espanha, Uruguai e Peru. Em 2007, realizou recital particular ao Papa Bento XVI (Aparecida do Norte). Em 2009, representou o Brasil no Encontro Mundial de Artistas, na Capela Sistina (Roma). Em 2011, realizou o recital oficial de reabertura do verdadeiro local onde viveu Chopin (Valldemossa). Especializado em multiculturalidade pelo Lesley College (Cambridge), Siviero escreve sobre música clássica nos conteúdos digitais do jornal O Estado de São Paulo.

    [biografia atualizada em fevereiro/2017]

Robert Schumann
Concerto Para Piano em Lá Menor, Op.54
Antonín Dvorák
Sinfonia nº 8 em Sol Maior, Op.88
MÚSICA, DIÁLOGOS, SIGNIFICADOS

Ver um instrumentista solista ao lado de um grupo de músicos sobre o palco em uma apresentação conjunta é algo relativamente comum para aqueles que costumam frequentar concertos. Talvez por isso mesmo, a gente não pare para pensar o que de fato acontece nessas situações. Consideremos por um instante a dinâmica que se estabelece entre pianista e orquestra. O que se dá é uma conversa harmoniosa? Um embate? Um jogo? Estão todos falando uma mesma língua? Se sim, seus discursos se somam ou se chocam? Qual o papel de cada parte envolvida? Existe um protagonista ou todos têm a mesma importância no final das contas?

Hoje ouviremos o Concerto em Lá Menor de Robert Schumann. Para nossa sorte, o compositor tinha uma ideia clara sobre essas questões – e a registrou por escrito em um texto na revista Neue Zeitschrift für Musik. “A separação entre piano e orquestra é algo que vemos acontecer já há um bom tempo”, diz ele. “Precisamos aguardar o gênio que vai nos mostrar de um modo novo e brilhante como orquestra e piano podem se combinar, como o solista, dominante ao piano, pode revelar a riqueza de seu instrumento e de sua arte, enquanto a orquestra, deixando de ser uma mera espectadora, pode contribuir com suas múltiplas facetas nesse processo”.

À declaração acima pode-se somar uma carta de Schumann a sua esposa, a grande pianista Clara Schumann, em que ele diz ser “incapaz de compor um concerto para um virtuose”. Em um primeiro momento, então, o que ele parece propor é o concerto como um espaço de diálogo entre a individualidade do solista e, de outro lado, a força de um conjunto, por sua vez também formado por uma série de instrumentistas. E, em seguida, coloca uma regra, válida a todos eles: o virtuosismo não pode ser um fim em si mesmo. Técnica, inspiração, tudo isso deve estar a serviço da música. E, aqui, da música que nasce, acima de tudo, do diálogo entre solista e orquestra.

Schumann levou um bom tempo para compor seu primeiro concerto e em momento algum entendeu a si mesmo como o “gênio” repleto de brilhantismo do qual falava na Neue Zeitschrift für Musik. Mas a obra, de 1845, com certeza aponta na direção desta nova forma a que ele se referia em seu artigo. Da compreensão do concerto como um diálogo, no entanto, pode naturalmente surgir uma outra pergunta: se o que existe entre piano e orquestra é uma conversa, do que então eles estariam falando?

O fascínio de Schumann pela literatura, assim como a loucura que o acometeu no final da vida, costumam ser terreno fértil para a busca de significados extramusicais em suas peças. No caso do Concerto Para Piano, tal leitura se apoia ainda na atividade do compositor como crítico musical. Isso porque, em suas críticas, Schumann dava a voz a personagens criados por ele, cada um com uma visão de mundo: Florestan, em suas avaliações, era pura intuição; Eusébio simbolizava a busca pelo comedimento; e Mestre Raro, uma tentativa de mediação entre ambos.

Preste atenção ao início da peça. O tom dramático da primeira entrada da orquestra e do piano estaria associado a Florestan, enquanto a melodia que se segue, mais doce, simbolizaria a presença de Eusébio. E o concerto, assim, nasceria dessa conversa entre intuição e razão. É com certeza uma dualidade com a qual todos nós podemos nos relacionar. Mas ela não precisa estar relacionada necessariamente a um episódio específico. Afinal, da mesma forma que nossa vida é o resultado de uma infinidade de escolhas, atitudes, sentimentos, uma obra musical é o retrato do universo interno de um autor, no qual cabem muitas emoções, histórias e situações.

Foi, de certa forma, a essa conclusão que Antonín Dvorák chegou ao escrever sua Sinfonia nº 8, que também ouviremos hoje. Sua sinfonia anterior tinha cores predominantemente dramáticas, advindas de um questionamento fundamental para o compositor. A influência de Brahms, que lhe ajudou a se firmar como autor, vinha acompanhada de uma defesa da ideia de uma música abstrata, ou seja, que não carregasse nenhum significado extramusical. Mas, como seria possível conciliar essa ideia com o desejo que Dvorák tinha de escrever música que mantivesse alguma ligação com a cultura regional da terra em que nasceu e se formou?

A Sinfonia nº 8 é uma tentativa de resposta. Otakar Sourek afirma que a obra é “representativa da personalidade artística e humana de Dvorák”. Isso porque, com seu aspecto emocional e pelos diversos temperamentos que retrata, ela é original justamente por propor uma volta a si mesmo e à busca de uma linguagem pessoal – em que as cores locais não são uma obsessão única mas, sim, apenas um dos múltiplos elementos que a constituem. O ser humano, afinal, é mais complexo e misterioso. E a música de autores como Dvorák e Schumann é prova disso, nos permitindo olhar para dentro dos dois autores – e, nesse processo, de nós mesmos.

Orquestra Sinfônica HeliópolisIsaac KarabtchevskyAlvaro Siviero

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