MÚSICA, DIÁLOGOS, SIGNIFICADOS

Ver um instrumentista solista ao lado de um grupo de músicos sobre o palco em uma apresentação conjunta é algo relativamente comum para aqueles que costumam frequentar concertos. Talvez por isso mesmo, a gente não pare para pensar o que de fato acontece nessas situações. Consideremos por um instante a dinâmica que se estabelece entre pianista e orquestra. O que se dá é uma conversa harmoniosa? Um embate? Um jogo? Estão todos falando uma mesma língua? Se sim, seus discursos se somam ou se chocam? Qual o papel de cada parte envolvida? Existe um protagonista ou todos têm a mesma importância no final das contas?

Hoje ouviremos o Concerto em Lá Menor de Robert Schumann. Para nossa sorte, o compositor tinha uma ideia clara sobre essas questões – e a registrou por escrito em um texto na revista Neue Zeitschrift für Musik. “A separação entre piano e orquestra é algo que vemos acontecer já há um bom tempo”, diz ele. “Precisamos aguardar o gênio que vai nos mostrar de um modo novo e brilhante como orquestra e piano podem se combinar, como o solista, dominante ao piano, pode revelar a riqueza de seu instrumento e de sua arte, enquanto a orquestra, deixando de ser uma mera espectadora, pode contribuir com suas múltiplas facetas nesse processo”.

À declaração acima pode-se somar uma carta de Schumann a sua esposa, a grande pianista Clara Schumann, em que ele diz ser “incapaz de compor um concerto para um virtuose”. Em um primeiro momento, então, o que ele parece propor é o concerto como um espaço de diálogo entre a individualidade do solista e, de outro lado, a força de um conjunto, por sua vez também formado por uma série de instrumentistas. E, em seguida, coloca uma regra, válida a todos eles: o virtuosismo não pode ser um fim em si mesmo. Técnica, inspiração, tudo isso deve estar a serviço da música. E, aqui, da música que nasce, acima de tudo, do diálogo entre solista e orquestra.

Schumann levou um bom tempo para compor seu primeiro concerto e em momento algum entendeu a si mesmo como o “gênio” repleto de brilhantismo do qual falava na Neue Zeitschrift für Musik. Mas a obra, de 1845, com certeza aponta na direção desta nova forma a que ele se referia em seu artigo. Da compreensão do concerto como um diálogo, no entanto, pode naturalmente surgir uma outra pergunta: se o que existe entre piano e orquestra é uma conversa, do que então eles estariam falando?

O fascínio de Schumann pela literatura, assim como a loucura que o acometeu no final da vida, costumam ser terreno fértil para a busca de significados extramusicais em suas peças. No caso do Concerto Para Piano, tal leitura se apoia ainda na atividade do compositor como crítico musical. Isso porque, em suas críticas, Schumann dava a voz a personagens criados por ele, cada um com uma visão de mundo: Florestan, em suas avaliações, era pura intuição; Eusébio simbolizava a busca pelo comedimento; e Mestre Raro, uma tentativa de mediação entre ambos.

Preste atenção ao início da peça. O tom dramático da primeira entrada da orquestra e do piano estaria associado a Florestan, enquanto a melodia que se segue, mais doce, simbolizaria a presença de Eusébio. E o concerto, assim, nasceria dessa conversa entre intuição e razão. É com certeza uma dualidade com a qual todos nós podemos nos relacionar. Mas ela não precisa estar relacionada necessariamente a um episódio específico. Afinal, da mesma forma que nossa vida é o resultado de uma infinidade de escolhas, atitudes, sentimentos, uma obra musical é o retrato do universo interno de um autor, no qual cabem muitas emoções, histórias e situações.

Foi, de certa forma, a essa conclusão que Antonín Dvorák chegou ao escrever sua Sinfonia nº 8, que também ouviremos hoje. Sua sinfonia anterior tinha cores predominantemente dramáticas, advindas de um questionamento fundamental para o compositor. A influência de Brahms, que lhe ajudou a se firmar como autor, vinha acompanhada de uma defesa da ideia de uma música abstrata, ou seja, que não carregasse nenhum significado extramusical. Mas, como seria possível conciliar essa ideia com o desejo que Dvorák tinha de escrever música que mantivesse alguma ligação com a cultura regional da terra em que nasceu e se formou?

A Sinfonia nº 8 é uma tentativa de resposta. Otakar Sourek afirma que a obra é “representativa da personalidade artística e humana de Dvorák”. Isso porque, com seu aspecto emocional e pelos diversos temperamentos que retrata, ela é original justamente por propor uma volta a si mesmo e à busca de uma linguagem pessoal – em que as cores locais não são uma obsessão única mas, sim, apenas um dos múltiplos elementos que a constituem. O ser humano, afinal, é mais complexo e misterioso. E a música de autores como Dvorák e Schumann é prova disso, nos permitindo olhar para dentro dos dois autores – e, nesse processo, de nós mesmos.

Conheça nossos patrocinadores

 

Ouro

Prata

Bronze

Apoio

Realização

@ COPYRIGHT 2016 - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS